Tratamento Medicamentoso do TDAH: 3 Motivos para Não Ser Sempre Igual

Introdução

Se o diagnóstico é TDAH, por que o tratamento medicamentoso do TDAH não é sempre o mesmo?
Essa é uma pergunta comum, e necessária, na prática clínica.

É frequente a ideia de que o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade pede uma solução padronizada, quase automática. Mas quem acompanha pacientes no consultório sabe: o tratamento do TDAH raramente cabe em uma receita pronta. Ele exige análise cuidadosa, individualização e integração com o funcionamento real do paciente.

Neurolover, você não prescreve medicação. Mas convive diariamente com seus efeitos, positivos e negativos, na clínica. E entender como esses medicamentos funcionam não é papel exclusivo do médico. Faz parte do seu raciocínio clínico como psicólogo ou neuropsicólogo.

O que significa falar em linhas de tratamento no TDAH?

Quando falamos em tratamento medicamentoso do TDAH, utilizamos o conceito de linhas de tratamento para organizar a tomada de decisão clínica.

Essas linhas não consideram apenas eficácia. Elas avaliam, de forma integrada:

  • Segurança do medicamento
  • Tolerabilidade e perfil de efeitos colaterais
  • Evidência científica disponível
  • Impacto funcional na vida do paciente

Em outras palavras: não basta funcionar no estudo; precisa funcionar na vida real.

Primeira, segunda e terceira linha: o que muda na prática?

🔹 Medicamentos de primeira linha

São aqueles que apresentam:

  • Boa eficácia clínica
  • Perfil de segurança mais favorável
  • Efeitos colaterais geralmente manejáveis

No tratamento do TDAH, os psicoestimulantes são, de forma consistente, considerados primeira linha.

No Brasil, temos dois principais princípios ativos:

  • Metilfenidato
    • Ritalina
    • Ritalina LA
    • Concerta
  • Lisdexanfetamina
    • Venvanse e similares

Ambos costumam ser indicados a partir dos seis anos de idade.

Estudos e metanálises mostram que:

  • Em crianças e adolescentes, o metilfenidato tende a apresentar melhor relação entre eficácia e tolerabilidade
  • Em adultos, a lisdexanfetamina aparece com maior frequência como escolha inicial

Mas isso não é uma regra rígida. A escolha sempre precisa ser clínica, não automática.

🔹 Segunda linha de tratamento

Quando os psicoestimulantes são:

  • Contraindicados
  • Mal tolerados
  • Ineficazes

Entramos na segunda linha, representada no Brasil pela atomoxetina (Atentah).

Ela é especialmente útil em situações como:

  • Risco ou contraindicação cardiovascular
  • Histórico de arritmias
  • Ansiedade significativa
  • Presença de tiques
  • Histórico de uso problemático de substâncias

Nesses casos, o risco dos psicoestimulantes pode superar o benefício.

🔹 Terceira linha: quando as opções anteriores falham

Se nem os psicoestimulantes nem a atomoxetina funcionam ou são toleráveis, existem alternativas consideradas de terceira linha, utilizadas de forma mais criteriosa e individualizada.

Esse cenário reforça um ponto central: o tratamento do TDAH é um processo, não uma decisão pontual.

A importância da rotina e do funcionamento real do paciente

Mais importante do que o dado estatístico é olhar para o paciente concreto, não para o paciente médio dos estudos.

Vamos a um exemplo clínico:

Ritalina de liberação imediata tem duração média de cerca de quatro horas.
Isso pode ser uma limitação — ou uma vantagem.

Imagine uma criança de dez anos que:

  • Estuda apenas no período da tarde
  • Apresenta maior prejuízo funcional nesse turno
  • Pela manhã, em casa, mostra desatenção, mas sem grande impacto prático

Nesse caso, uma dose administrada antes da escola pode ser suficiente para cobrir a demanda principal.

Já crianças ou adolescentes em período integral podem precisar:

  • De mais de uma dose ao dia
  • Ou de apresentações de liberação prolongada

Em muitos contextos, inclusive, a escolha passa também pela viabilidade financeira da família.

Não existe medicamento ideal. Existe decisão clínica.

No fim das contas, não existe um medicamento universalmente ideal para o TDAH.

Existe, sim, uma decisão clínica que considera:

  • Eficácia
  • Segurança
  • Efeitos colaterais
  • Rotina
  • Custo
  • Experiência subjetiva do paciente

O tratamento não é seguir um protocolo engessado.
É ajustar o caminho até que ele faça sentido na vida real.

E é exatamente aí que mora a clínica de verdade.

Deixe o seu Comentário