Introdução
Se o diagnóstico é TDAH, por que o tratamento medicamentoso do TDAH não é sempre o mesmo?
Essa é uma pergunta comum, e necessária, na prática clínica.
É frequente a ideia de que o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade pede uma solução padronizada, quase automática. Mas quem acompanha pacientes no consultório sabe: o tratamento do TDAH raramente cabe em uma receita pronta. Ele exige análise cuidadosa, individualização e integração com o funcionamento real do paciente.
Neurolover, você não prescreve medicação. Mas convive diariamente com seus efeitos, positivos e negativos, na clínica. E entender como esses medicamentos funcionam não é papel exclusivo do médico. Faz parte do seu raciocínio clínico como psicólogo ou neuropsicólogo.
O que significa falar em linhas de tratamento no TDAH?
Quando falamos em tratamento medicamentoso do TDAH, utilizamos o conceito de linhas de tratamento para organizar a tomada de decisão clínica.
Essas linhas não consideram apenas eficácia. Elas avaliam, de forma integrada:
- Segurança do medicamento
- Tolerabilidade e perfil de efeitos colaterais
- Evidência científica disponível
- Impacto funcional na vida do paciente
Em outras palavras: não basta funcionar no estudo; precisa funcionar na vida real.
Primeira, segunda e terceira linha: o que muda na prática?
🔹 Medicamentos de primeira linha
São aqueles que apresentam:
- Boa eficácia clínica
- Perfil de segurança mais favorável
- Efeitos colaterais geralmente manejáveis
No tratamento do TDAH, os psicoestimulantes são, de forma consistente, considerados primeira linha.
No Brasil, temos dois principais princípios ativos:
- Metilfenidato
- Ritalina
- Ritalina LA
- Concerta
- Lisdexanfetamina
- Venvanse e similares
Ambos costumam ser indicados a partir dos seis anos de idade.
Estudos e metanálises mostram que:
- Em crianças e adolescentes, o metilfenidato tende a apresentar melhor relação entre eficácia e tolerabilidade
- Em adultos, a lisdexanfetamina aparece com maior frequência como escolha inicial
Mas isso não é uma regra rígida. A escolha sempre precisa ser clínica, não automática.
🔹 Segunda linha de tratamento
Quando os psicoestimulantes são:
- Contraindicados
- Mal tolerados
- Ineficazes
Entramos na segunda linha, representada no Brasil pela atomoxetina (Atentah).
Ela é especialmente útil em situações como:
- Risco ou contraindicação cardiovascular
- Histórico de arritmias
- Ansiedade significativa
- Presença de tiques
- Histórico de uso problemático de substâncias
Nesses casos, o risco dos psicoestimulantes pode superar o benefício.
🔹 Terceira linha: quando as opções anteriores falham
Se nem os psicoestimulantes nem a atomoxetina funcionam ou são toleráveis, existem alternativas consideradas de terceira linha, utilizadas de forma mais criteriosa e individualizada.
Esse cenário reforça um ponto central: o tratamento do TDAH é um processo, não uma decisão pontual.
A importância da rotina e do funcionamento real do paciente
Mais importante do que o dado estatístico é olhar para o paciente concreto, não para o paciente médio dos estudos.
Vamos a um exemplo clínico:
A Ritalina de liberação imediata tem duração média de cerca de quatro horas.
Isso pode ser uma limitação — ou uma vantagem.
Imagine uma criança de dez anos que:
- Estuda apenas no período da tarde
- Apresenta maior prejuízo funcional nesse turno
- Pela manhã, em casa, mostra desatenção, mas sem grande impacto prático
Nesse caso, uma dose administrada antes da escola pode ser suficiente para cobrir a demanda principal.
Já crianças ou adolescentes em período integral podem precisar:
- De mais de uma dose ao dia
- Ou de apresentações de liberação prolongada
Em muitos contextos, inclusive, a escolha passa também pela viabilidade financeira da família.
Não existe medicamento ideal. Existe decisão clínica.
No fim das contas, não existe um medicamento universalmente ideal para o TDAH.
Existe, sim, uma decisão clínica que considera:
- Eficácia
- Segurança
- Efeitos colaterais
- Rotina
- Custo
- Experiência subjetiva do paciente
O tratamento não é seguir um protocolo engessado.
É ajustar o caminho até que ele faça sentido na vida real.
E é exatamente aí que mora a clínica de verdade.